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7 de ago. de 2014

Francisco, o pássaro e o milagre



Por Manuela Ramos


“O mais fácil pra mim é o português. Eu escrevi um ou dois livros primeiro em castelhano, porque pensei que fosse mais fácil. Mas não é não”. Argentino por natureza, Iván Antônio Izquierdo é naturalizado brasileiro e vive aqui há mais de trinta anos. Apesar do sotaque carregado, todos seus contos são escritos em português.
Quando tinha três anos de idade, meu neto Francisco tinha um livrinho de um autor creio que tcheco, que consistia em desenhos articulados que, ao abri-lo, representavam, em relevo, animais e outras figuras. Ao abrir as páginas, as figuras sobressaíam e se mexiam. Em cada página, junto ao desenho, haviam pequenos poemas referentes a cada figura. As figuras eram uma vaca, uma aranha, um fantasma e um morcego marrom. Francisco adorava abrir o livrinho na página do morcego. Ele não percebia como tal, e nunca se interessou pelos versos correspondentes. Ao abrir o livro, o morcego se levantava e abria as asas, como se quisesse voar. Francisco achava, com razão, que o morcego era um pássaro. Ele tinha visto muitos pássaros, e jamais um morcego. Mais de uma vez o levou junto à janela do terraço, elevando o livro, para ver se o pássaro saia voando.
Nasceu em Buenos Aires, na Argentina, em 1937. Influenciado pelo seu tio, que era médico, formou-se em medicina pela Universidade de Buenos Aires, em 1961. Pesquisador da área da memória, antes de virar cientista, Iván começou a escrever contos. Inspirado em Jorge Luis Borges, foi aos 18 anos que se aventurou na literatura. Durante sua vida acadêmica, os artigos viraram (bem) mais frequentes que as histórias. “O artigo é mais fácil de escrever. Como ele é baseado em fatos, é só pegar um papel e explicar”. Mas o prazer maior vem da ficção.

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