Por Luna Mendes
![]() |
| Foto: Luna Mendes |
***
- Como surge a Antena Negra?
A rádio Antena Negra começou com reuniões [no ano de 2007], as primeiras foram organizadas pelo pessoal da editora Deriva. Elas eram bem secretas porque o nosso plano inicial era colocar a antena no alto da casa do estudante [localizada na avenida João Pessoa, centro de Porto Alegre], só que nós tínhamos muito medo de que nos denunciassem, o pessoal já tava comentando que estavam indo umas pessoas estranhas na reunião. Depois disso começamos a busca pelo transmissor, veio um pessoal da Rádio Muda de Campinas pra cá, deram oficinas pra galera, eles têm um lance de incentivar outras rádios piratas, rádios comunitárias, rádios livres. Quem nos apoiou também foi o pessoal da Resistência Popular que já tinha um transmissor.
Pra montar a rádio a gente se dividiu em equipes, ficou uma equipe técnica responsável pelo transmissor e que teve o trabalho de montagem [dos aparelhos], acabamos tendo que comprar várias peças, saiu bem caro, porque transmissor de rádio é uma coisa muito cara, e aí a gente começou a transmitir. Criamos um esquema de transmissão que era assim: tu transmite por streaming pela internet, o transmissor pega o streaming e retransmite. Aí tu não precisa transmitir do mesmo lugar que está o transmissor, ele fica em um lugar secreto que nem quem faz o programa sabe onde é. E tu transmite de qualquer lugar só tendo a senha do canal de transmissão.
- Em algum momento vocês pensaram em se tornar uma rádio ‘legalizada’?
No início, tivemos esse debate de rádio comunitária versus rádio livre, escolhemos rádio livre. Na verdade, queríamos nos colocar como rádio pirata, mas não rolou porque se ficássemos falando rádio pirata iria ter muita repressão. Aí escolhemos rádio livre porque rádio comunitária tem que obrigatoriamente ser feita pela comunidade, teríamos que abrir para outros grupos, por exemplo, na rádio comunitária da Restinga tinha um programa que era de um policial e essa não era a nossa intenção. A gente queria colocar o nosso ponto de vista, é uma rádio pra difundir ideias mesmo, queríamos fazer uma rádio propaganda da causa libertária.
Além do que o processo de legalização de rádio é absurdo, a gente nem quis entrar nisso porque não tem como. Óbvio que seria bom ter uma rádio legalizada, não estamos em busca do romântico, pirata e tal, mas é um processo super burocrático, super dispendioso: vai pra Câmara dos Deputados, passa por aprovação das concessões e se for uma rádio como a nossa que diz “foda-se a câmara dos deputados” , óbvio que os caras não vão dar a concessão. É uma coisa bem pra manter o sistema, porque tu pode se expressar, mas tu não tem acesso. Primeiro tu não tem muito dinheiro pra fazer um programa teu, aí a tecnologia cria outras maneiras de tu te expressar e os caras também restringem. Agora com a televisão digital poderia se abrir muito, é uma facilidade pra pegar a transmissão de tv e fazer a abertura de novas vias e novos canais, mas a única coisa que falam é que a tv digital vai melhorar a imagem e o som, na verdade é muito mais que isso. Esse processo todo não só não tem sentido como tem repressão, entre 2006 e 2007 ocorreram fortes apreensões da Anatel. E se os caras pegam é crime vai preso e tudo.
***
A repressão da Anatel às rádios livres é antiga. Em agosto de 2004, após anos de trâmites burocráticos a rádio Restinga - uma rádio comunitária fundada nos anos 90, que tinha todos os documentos necessários para a regularização circulando no Ministério das Comunicações, que funcionava em uma sala do Centro Comunitário da Restinga, prédio público, administrado pela prefeitura de Porto Alegre – foi fechada durante uma invasão da ANATEL e da Polícia Federal. Coincidentemente, ou não, o fechamento ocorreu após a rádio realizar a cobertura de um protesto contra a falta de médicos em um posto de saúde da Restinga. Depois do fechamento ainda se tentou resgatar a emissora em uma ocupação ao prédio da ANATEL em Porto Alegre. Ação organizada pela Associação Brasileira de Rádios Comunitárias contra a repressão às rádios comunitárias, em novembro de 2004.
Fonte: http://radioquilombo.wordpress.com/2010/04/13/historia-da-radio-quilombo-fm/
***
- Sobre o que era o teu programa?
O Vozes na Rua era um programa de notícia e música, tinha muita notícia e muita informação, basicamente de movimentos anarquistas no mundo. Tem aquela agência de notícias anarquistas, a ANA, - http://noticiasanarquistas.noblogs.org/ - e na época, 2010, tava tendo a questão da Grécia e a gente sempre pegava notícias e colocava; a gente fazia chamadas de manifestações e era bem legal porque rolava alta interação com outras cidades do Brasil e isso incentivou muitos caras a fazerem rádios, como a cordel libertário http://radiocordel-libertario.blogspot.com/. E é interessante isso porque a gente faz uma movimentação aqui e isso se espalha e dá força pra galera organizar coisas em outros lugares.
Todos os programas eram feitos por anarquistas libertários. Tem o Café com Porrada que rola até hoje, o Zona Livre que tá rolando ainda todo sábado que é do pessoal da Resistência Popular, tem o programa feminista do coletivo Ação Antisexista, tinha o programa de cinema com o Daniel Vilaverde que era o mais diferente, mas que era sobre filme trash, mas também tinha música e entrevistas, ele entrevistava figurinhas do cinema trash brasileiro.
- Tu vê alguma diferença entre a transmissão pela Internet e a do rádio tradicional?
A gente sempre fica na esperança de que algum infeliz vai estar lá no dial do rádio e vai nos achar. A rádio pega em um círculo bem grande porque o centro é alto. O nosso raio tem um alcance de uns 3.5 quilômetros e é um transmissor fraco, 50 watts, pra ter uma ideia o transmissor da rádio Cidade tem 11 mil watts.
Pelo rádio a diferença é mais a aleatoriedade, tu abrange um público mais aleatório que tá procurando coisas e ouve aquilo. Porque o rádio tu vai ouvir é só um lance tri reacionário, e é legal que tenha uma opinião diferente, a vendedora de churrasquinho que tá sempre ouvindo rádio, sempre sofrendo uma lavagem cerebral de direita, pelo menos tem a possibilidade de se atingir isso, mas pela internet tu só vai atingir quem está procurando o lance mesmo, é mais um fortalecimento. Mas na rádio é interessante pelo lance de propaganda, de difusão de uma opinião mais libertária. O nosso programa tinha muito isso, a gente pegava o jornal e ficava comentando as coisas que estavam acontecendo na cidade com o ponto de vista libertário, por exemplo 15 toneladas de maconha foram apreendidas, a gente falava sobre a proibição da maconha, falava sobre a política de drogas. Outro dia num programa contei todo o “Notícias de uma Guerra Particular”, aí a gente ficava falando dessas coisas e tocava música, música a gente botava mais pra se organizar, não tínhamos um roteiro pré definido, tínhamos assuntos e íamos falando, fizemos umas oficinas e daí tinha que fazer roteirinho, mas o nosso programa tinha duas horas, imagina fazer duas horas de roteiro, mas a gente se organizava trocava umas ideias, as pessoas interagiam com a gente no MSN. A internet até é interessante, mas internet nunca tem uma audiência muito grande, porque ouvir rádio pela internet não é um costume.
***
A internet é um avanço tecnológico, mas até que ponto inovações tecnológicas alteram as formas de produção da informação? Elas, de fato, ampliam a gama de opções para o receptor comum, mas ao mesmo tempo em que se democratiza o acesso se impõe restrições burocráticas que dificultam a produção. Apesar da ausência de barreiras físicas, a internet ainda se mostra insuficiente para alterar de forma significativa a democratização da informação. As tecnologias são modernizadas, produzir fica mais fácil e barato, mas as leis não acompanham as tecnologias e tampouco são feitas com o mesmo propósito, o que torna complicado o trabalho de montagem e manutenção de uma rádio livre. Como o retorno financeiro é praticamente zero - quando não negativo - e a programação depende de grupos que estejam dispostos a produzir nessas condições, a rádio não mantém uma estabilidade na grade de programação, que é alterada quase que mensalmente. Essa oscilação também dificulta a estabilização do público que não fideliza como ouvinte porque não consegue mapear os programas de sua preferência. No entanto, todos esses são obstáculos que competem à organização do grupo e não à forma técnica da produção de rádio via internet que tem tanto potencial para desenvolvimento quanto uma rádio produzida em estúdios profissionais.


0 comentários:
Postar um comentário